Era uma vez a história entre Paula e Danilo, duas pessoas que se conheceram num microblog, o Twitter.
Num domingo casual, Danilo está em sua casa contemplando a vista do apartamento quando resolve entrar no Twitter, um microblog mundial, amplamente dominado por Brasileiros, o povo que mais consome rede social no mundo, o povo mais quente do mundo.
Danilo está em sua Timeline quando um tuíte desperta sua atenção. Uma foto preto e branco, um olhar, um sorriso do lado esquerdo compõe o avatar de Paula, uma garota distinta, dona de pitacos sagazes e humor refinado aliado a vida despreocupada e pacata do interior paulista. Danilo olha com atenção, procura pistas, lê os posts, busca as entrelinhas, os detalhes, quer saber mais profundamente quem é Paula, o que ela faz, de onde ela fala, o que ela procura no Twitter.
Danilo é um homem criado, paulistano contumaz, acostumado com o concreto, a selva de pedra, a sirene e o trânsito, mas é crente que em algum lugar algo maior o espera, algo talvez menor, mas ainda desconhecido.
Danilo lê um tuite de Paula e a responde, busca chamar sua atenção, busca um sinal. Paula retribui, ela é atenciosa, simpática, singular, além de atraente e sedutora.
Subitamente, Paula desaparece, sem deixar vestígios, traços, rastro. Danilo se preocupa, mas aquele é seu único contato, sua única pista. Dois meses depois, ela retorna e num dia a noite posta algo típicamente seu, algo refinado, bem humorado, beirando a inocência. Danilo a cumprimenta, diz que tinha saudades de vê-la mais frequente por ali, mais presente. Ela se justifica, diz que estava sem o computador em mãos, ela estava de volta.
Paula, num rampante de ousadia, envia a Danilo uma mensagem particular. Ela lhe dá o endereço de mensagem instantânea, e Danilo a adiciona, a procura. Iniciam uma conversa descontraída. Danilo flerta com Paula, a princípio ressabiada, resguardada com o rapaz da metrópole. Eles discutem gostos em comum, as suas vidas, anseios e experiencias amorosas. Danilo está atraído, Paula aparentemente também. Tudo como num conto de mágica, numa fábula… A conversa deslancha e se estende por dias, semanas e os dois ensaiam um encontro. Decidem que será na cidade de Paula. Fazem planos, contam os dias, as horas, os minutos. Danilo se arruma numa sábado plúmbeo em São Paulo e pega a Anhanguera sentido Campinas. Paula está em casa, se arrumando, ansiosa. Danilo também. Nas curvas sinuosas da rodovia, ele conta os quilômetros, os pedágios. Finalmente, aparece a entrada 151, a entrada para a cidade de Paula. A placa de boas-vindas saúda Danilo, que já visitara o lugar alguns meses anteriormente a trabalho. Danilo a telefona e marcam o encontro em uma loja de conveniência, num posto de gasolina amplo na cidade. A noite havia caído. Danilo estaciona e aguarda por Paula. Do lado de fora do carro, ele se encosta na porta, envia pistas de romance e assiste de camarote a dança das estrelas cadentes no céu limeirense…
Eis que a ansiedade acaba… Paula se aproxima e diz ‘olá’ à Danilo. Os dois se abraçam, ele a entrega a chave de seu carro e pede que ela os leve até algum lugar legal para comerem algo e conversarem. Paula sugere uma lanchonete aconchegante perto dali, os dois pedem algo leve e se olham, se conhecem, se contemplam… Danilo admira as mãos da garota e a elogia dizendo o quão linda ela está, o cabelo impecável, o vestido indefectível, o aroma adorável do perfume Jean Paul. Eles batem papo, tentam dissociar tudo o que havia sido dito anteriormente e ter uma conversa normal, menos idealizada e mais prática. Danilo segura as mãos da moça e de lá eles partem rumo a um bar. Clima de paquera, reggae na vitrola, cocktail de frutas na taça, tudo parece estar perfeito, e até aquele momento está! Danilo sente a brecha e a beija, e coloca seu cabelo atrás da orelha, conforme ‘ensaiado’. Ela é receptiva. Danilo elogia o seu piercing, mostra que ele tinha o mesmo brinco, no mesmo lugar… Eles se beijam mais. É inegável que ainda paira uma certa tensão, mas o gelo está sendo derretido… Eles rumam pela noite adentro de sábado, cidade do interior as opções não são tantas, mas existem bares e Paula como que mapeia a cidade, mostra o clube, mostra alguns locais conhecidos, a prefeitura…
Paula, apesar da tenra idade de 24 anos, já experimentou um casamento mal sucedido. Traição, inverdade e decepção produzem na garota uma sensação complexa de se descrever. Ela olha o amor de esguelha, sempre espera o pior e, quando fatalmente o pior acontece, ela não sofre tanto. É calejada, é experiente. Paula tem um filho pequeno, o amor de sua vida, o ar que ela respira, o grito que ela ecoa quando se sente acuada. Uma parte importantíssima de sua vida é o pequeno Lu. Danilo percebe em Paula, às vezes, um comportamento contradizente, quase arredio, mas ele sequer a conheceu, ele gosta dela, ele a quer muito bem. Os dois continuam a transitar pela cidade, e eis que Danilo lhe faz um convite, uma proposta indecorosa. Os dois decidem consumar o ‘amor’, se tornarem um corpo só, unidos por dois corações… O prazer vem a tona, eles se arriscam, eles ousam, eles se expõem… Beijos sinceros, sem culpa e orgasmos múltiplos num pequeno destino em algum lugar do interior… O tempo passa, as horas se estendem, é hora de ser arrumarem e voltarem ao mundo, precisamente a cidade e a casa de Paula.
Os dois conversam pela madrugada fria, uma barreira havia sido quebrada, um elo rompido, o vínculo definitivamente aumentado…
Danilo é mais romântico, ele é mais crente do amor, apesar de viver na cidade plúmbea, ele ainda se encanta. Paula, por vezes, se comporta de um modo antagônico. Danilo percebe que ela é uma moça que não teme um pouco mais de investida, não teme homens que tenham uma intenção mais profunda, mas sente que ela teme um beijo inocente por medo de se apaixonar e deixar sua zona de conforto. Danilo a deixa e eles se despedem com um beijo longo e promessas de reencontro em um dia, algum lugar. Danilo pega a estrada, enfrenta percalços e retorna a São Paulo. Paula dorme, acorda inquieta e toma uma decisão… Os dias passam, o afastamento parece ser a tônica, a novidade. Danilo se fecha, sente-se preterido e chega a ser rude com a garota. Paula simplesmente vive seus dias de trabalho, maternidade e diversão. Danilo escreve sobre música… Danilo, apesar de homem feito, sente-se confuso. O que teria acontecido, o que a teria desagradado? A distância, a diferença de idade, a química da atração pessoal? Tudo somado? Danilo tenta reconstruir a fábula, ele se equilibra na linha tenue do faz de conta, da relação tempo/espaço, ficção/realidade. Paula é uma garota simples, porém não simplória. Danilo sonha em morder a ‘Big Apple’, rever a cidade-luz, preferencialmente com a garota, mas talvez a madrugada tenha acabado e o trem da paixão ido embora… Paula parece não se importar muito além da vida local, do seu cotidiano. Ela realmente quer ser querida e amada pelos amigos, o sentimento de pertencer a algo, ser motivo de orgulho aos pais amados e uma heroína ao pequeno Lu, uma mãe e pai para o garoto. Danilo tem vontade de pegá-la pelas mãos e mostrá-la o quão grande esse país e o mundo são. Povos, línguas e culturas diferentes. O que pensará Paula sobre isso? Danilo não a considera um troféu, nunca sonhou com um único encontro mesmo que ‘completo’, não que isso seja uma praxe de alguns rapazes por ela, mas realmente existe uma diferença.
Paula e Danilo experimentaram o amor juntos, poucas horas, mas experimentaram, foram íntimos… Paula dá indícios de que existe outro algúem que seu coração e mente se encantam. Danilo busca em outros corpos e bocas o efeito daquele dia, daquele momento. Paula não compara, apenas experimenta, apenas vive… Não existem respostas, elas estão subentendidas, nas entrelinhas… Danilo e Paula, os nomes escritos na comanda do bar, pessoas comuns, um típico one night stand.
Dois meses depois, eles não se falam mais, ela tem outro amor: está apaixonada por uma rapaz de sua cidade natal. Danilo ainda sai pela paulicéia em busca de um novo amor. O cotovelo ainda dá pontadas diárias, mas ele sabe que é mais que hora de desencanar, de saber que nunca mais irão se rever. Danilo sabe que fez tudo o que estava a seu alcance e mais um pouco, mas não foi o suficiente para a garota se apaixonar. É hora de recolher os cacos do chão e recomeçar…
Palavra do leitor