Dia desses, ouvi uma conversa que me fez pensar por horas. Duas amigas no metrô de SP falando sobre relacionamentos que não deram certo, erros e sucessos com os homens, dicas, etc. Por sorte, as 10 estações que faltavam para chegar ao nosso destino — já que como bom jornalista tive a atenção de descobrir que morávamos no mesmo bairro –, garantiram mais do que risos ao longo da viagem, durante a forte papagaiada. Renderam discussão. Essa que vos compartilho agora em detalhes que recordo, inclusive com tons de vozes e cores. Vamos ao caso.
Beth* namorava há 4 meses. Um bancário. Moreno, estatura mediana, gostava de judô e futebol. O tal namorado era, segundo nossa protagonista, atencioso, mas muito ciumento. Tinha grana, carro, o próprio apartamento. E queria casar. Mas Beth se dizia muito exigente (?) e não estava pronta para o matrimônio. Mesmo com sua ânsia pela maternidade, pelos domingos a dois, as compras no supermercado e a fugidinha para o motel, o véu, a grinalda, a segurança de um peito masculino numa terça-feira de TPM. E o companheiro era tudo isso. Pé no chão, seguro de vida, de carro, de casa, poupança, pagamentos à vista. Friamente, terminaram. Beth alegou que o tal fulano era tudo o que uma mulher sonhava, mas não era para ela.
Duas semanas depois, conheceu um homem que era totalmente diferente do acima citado. Era músico, porra louca, morava com os pais, fumava maconha. Não usava terno, tampouco queria casar. Não tinha carro, fazia esse tipo ecochato, natureba, vegetariano, que vive em cima de uma bicicleta. O estilo de cara que mulher teme apresentar aos pais. Aquele que diria “Eai?”, para o sogro. Que reclamaria da comida da sogra. Sincero, por vezes grosseiro.
“Vamos lá, amiga. Não precisa fumar, só fique conosco e participe do papo, ela disse”, explicou Beth sobre o convite de uma amiga para juntar-se à uma roda de adeptos da brisa, durante a festa de aniversário em uma chácara no interior do estado. E, entre interrupções da colega de viagem de trem com perguntas sobre sexo e o apito para fechar as portas, Beth tentava explicar como conheceu e se envolveu com Flávio* depois daquela noite na roda do baseado. E como ele era o homem da vida dela. “Mas como você vai convencê-lo a se casar?”, perguntava a amiga pentelha. “Não sei. Vou esperar ele querer”, retrucava Beth. E a conversa seguiu por esse rumo até descermos na mesma estação. Beijos e abraços femininos, desejos de boa noite e direções opostas. Lá se foi uma das maiores incógnitas que pude presenciar na vida.
A grande questão aqui é a suposta exigência. Homens e mulheres (muito mais as mulheres do que os homens) se dizem exigentes quando o assunto é o amor. Querem companheiros inteligentes, engraçados, bonitos (ou não), sarados (ou não), com [muito] dinheiro, fiéis, que não sejam ciumentos… e a lista continua. “É um filtro natural”, defendem alguns. “Eu quero o melhor para mim”, explicam outros. Vamos pensar de outra forma. Imaginemos que as pessoas gostem apenas da ideia de ter um companheiro ou companheira assim. Alguém que saiba conversar sobre a Primavera Árabe, que coloque uma música romântica enquanto cozinham juntos e tenta impressionar falando abobrinhas sobre vinhos tintos, que lave os pratos, que seja recíproco. Não seria legal namorar alguém que cumpra com todas as suas expectativas?
Não. Nenhum ser humano é uma laranja sem metade, um pé descalço, um avião sem asa. Desculpe, Adriana Calcanhoto, mas pessoas são completas. Possuem uma vida totalmente planejada, mesmo que o planejamento seja não ter plano algum. E podem sim ter expectativas. Mas a mais importante delas, seja em um homem ou mulher, é encontrar alguém que te faça feliz do jeito que é. Não importa se faz o tipo modelo de revista ou inimigo da academia. Mais exigente do que você é o seu próprio coração. E ele só bate por quem sabe fazê-lo bater. Te dando casa, comida e roupa lavada ou sendo apenas seu amante. A paixão vem de surpresa e não se importa com status, idade, cor ou credo. Saber aceitar um amor puro vai muito além de querer ser amado, mas de quebrar tabus. “Não curto mina tatuada”, já ouvi de amigos. “Eu fujo de homens atletas. São muito cachorros”, expulsou-me, outra. Daí, lembro de mulheres que passam anos “ao lado” de homens que cumprem detenção. Pessoas traídas que não abandonam seus algozes. Idas e vindas de romances turbulentos, pacíficos. E o filtro dessas pessoas? Existe?
Não carregue a culpa de não corresponder às expectativas de alguém. Poucas pessoas marcam nossas vidas a ponto de nos entregarmos cegamente. E isso vai mais do que ser exigente, é sentir realmente a sintonia, a harmonia entre duas pessoas. Quando entender que é necessário sentir tudo isso com o coração, será feliz com quem quer que seja. Será amado e aprenderá a amar. Afinal, quem muito escolhe, acaba sendo escolhido, não tem jeito.
“O essencial é invisível aos olhos”.
(por Bruno Acioli)











