Overdose de ilusões. É assim que vejo meu passado quando penso em todos os filmes de amor que assisti, músicas românticas que ouvi e histórias com finais felizes que li. Para as mulheres, talvez não para todas, a construção de uma vida plena ao lado de uma metade maravilhosa seja o ideal de “vida completa”.
Hoje, sei que não funciona assim.
Durante muitos anos, pensei que a questão “tampa x panela” fosse algo fácil, até natural de acontecer, só que o que fazemos com as nossas expectativas quando o amor simplesmente não acontece?
Amor, paixão, tesão. Chame do que quiser. Cada um, hoje em dia, tem uma maneira personalizada de chamar por este que é um sentimento complicado de ser construído. Sim, construído, porque nem um encontro ocasional perfeito é a garantia, o adubo que fará brotar as inúmeras e complicadíssimas raízes que se firmam em uma relação a dois.
Após quatro anos do término de um relacionamento longo, com muitas cicatrizes e sentimentos mal resolvidos, vejo que o trabalho de reconstrução de uma auto-estima amorosa é uma tarefa árdua e, por muitas vezes, doída. “O problema sou eu, não você”. Hoje acredito completamente que essa seja uma resposta muito honesta, e não simplesmente uma saída pela esquerda de alguém que não queira se comprometer.
Confesso que o ceticismo amoroso e o cinismo sentimental são hoje pilares muito sólidos que se firmaram na essência desta que vos escreve. Perdi amigos e magoei pessoas por dizer coisas que não deveria, em momentos nos quais queridos meus só precisavam escutar um “ele ou ela vai voltar”, ou, “ele ou ela não te merece”. Balela. Tudo em vão. Geralmente o problema está em você, me desculpem a sinceridade. Grosseria? Julgue-me quem quiser.
Hoje, culpo as músicas, os filmes e as histórias. Hoje, me culpo por não enxergar que o real consolo seria alguém ter me dito no passado que eu errei. Errei em acreditar que tudo aquilo não era verdade e que é trabalhoso entregar o melhor que você tem a alguém. Pode ser o melhor sexo, a melhor confissão de amor ou a melhor expectativa. Esta última, sim, te coloca em xeque.
Hoje, sei que não funciona assim.
Amanheço tentando acreditar que um dia poderei inspirar um outro a ser melhor pra mim. Talvez, apenas um fragmento de boa vontade dessa outra parte de um relacionamento conseguisse me fazer ver que vale a pena destruir os meus pilares e repensar a minha fundação.
Hoje, sei que eu funciono assim. Sei também que uma outra metade não me bastará se eu não estiver inteira.
E quem poderá me julgar?
(Por Ana Samadello)










