Ele me convidou para assistir à exposição de sua arte, no mesmo dia em que eu tinha uma reunião a três horas de distância de lá.
Passei o dia todo fora, enfrentei trem e metrô lotados e não poderia passar em casa para tomar um banho e me arrumar antes de ir. Então quase desisti da exposição e fui direto pra casa. Mas em nossas conversas ele havia sido tão gentil e o assunto era tão fluente, que resolvi ir vestida de espantalho mesmo.
Quando cheguei lá, vi de longe um rapaz parecido com ele, mas duvidei. Na minha cabeça eu o imaginava mais alto e… bem… o imaginava maior. Dessas ilusões que a gente cria, porque a personalidade dele era incrível e ele tinha muita certeza dos seus valores. A gente acaba projetando isso na visualização do físico.
Enfim. O rapaz parecido com ele era ele mesmo. Não muito alto, franzino e magrinho. Mas sorriso e simpatia encantadores. Em vez de me decepcionar, eu vi alguém muito mais ao meu alcance do que eu imaginava.
Depois da exposição saímos juntos, com mais alguns amigos dele e passei momentos divertidíssimos com todos eles, até que ele me deixou em casa.
O interesse foi mútuo e fulminante. Nos apaixonamos em questão de horas, mas ele não me beijou naquele dia. Além de tudo era um cara romântico à moda antiga. Pá! Morri de amores.
Nos beijamos no encontro seguinte e duas semanas depois ao primeiro encontro, ele me pediu em namoro.
Eu estava no paraíso. Vivia um dos melhores momentos da minha vida, tudo dava certo. Recém-formada, com um emprego fascinante e a vida se encaminhando aos poucos. Como se não fosse o suficiente, havia encontrado o cara que era a personificação do homem perfeito.
Tínhamos tudo em comum: crenças, valores, gostos, estilos, ambições, planos. E ele era tudo de mais perfeito: responsável, trabalhador, divertido, carinhoso, morava pertinho da minha casa, tinha um emprego bom, pós-graduado, bonito e atencioso.
Não tinha como dar errado. 
Os problemas começaram tão rápido quanto a paixão fulminante: com duas semanas de namoro e menos de um mês que nos conhecíamos, ele disse que me amava. Eu não o disse de volta. Estava perdidamente apaixonada por ele, mas ainda não sabia se também o amava. Achei um pouco precipitado, da parte dele, então silenciei. (Aliás, é o meu karma. Todas às vezes que alguém diz que me ama, eu tenho problemas sérios com essa pessoa e a relação fica balançada.)
No dia ele não pareceu se importar com isso. Mas na vez seguinte que nos encontramos, ele parecia meio distante. Durante uma semana tudo ficou esquisito e ele não me procurava mais como antes. Rolou aquele pressentimento feminino que todas nós temos e só sabemos definir como “ele tá estranho”. Minha intuição me avisou que aquele era o início do fim. O procurei para conversar, mas ele evitou todas as vezes.
No final da semana ele deu o primeiro lance e disse que estava confuso com tudo aquilo. Mencionou de leve o fato de eu não ter dito que também o amava, mas não deu a entender que esse fosse o principal motivo da “confusão”. No domingo de carnaval ele deu o tiro de misericórdia e terminou comigo. Por celular. Por mensagem de texto.
Foi a primeira vez que eu gritei com alguém no telefone. Liguei pra ele e o chamei de covarde e egoísta. Eu dificilmente perco o auto-controle dessa forma. Não entendia os motivos que ele teria pra terminar comigo assim, do nada.
Ele estava com um livro meu, então combinamos de nos encontrar na terça-feira pra que o me devolvesse e pudéssemos conversar.
Ele chegou ao local combinado, sentou-se ao meu lado e ficou mudo durante 20 minutos seguidos. Quando abriu a boca, disse: “Não tem muito o que dizer.” Explodi novamente. Disse coisas horríveis a ele, mas não me arrependo de uma única palavra. Ele não sabia dizer nem o porquê de estar terminando comigo. Só repetia que não aguentava mais aquilo, que precisava pensar mais em si e que não seria justo com ele, nem comigo continuar aquele relacionamento. Também disse: “É melhor terminarmos agora, do que nos envolvermos demais.”
Fiquei besta. Sempre pensei que “se envolver” fosse justamente a ideia de um relacionamento.
Perguntei onde eu tinha errado, se ele tinha se apaixonado por outra, se alguém tinha falado alguma coisa de mim. Qualquer coisa que justificasse um fim tão repentino.
No fim, saí do nosso último encontro da mesma forma que cheguei: sem saber o motivo do pé na bunda. E até hoje eu não compreendo.
Levei muito tempo pra superar esse fora pois, quanto mais eu tentava entender, mais eu via apenas motivos para aquilo tudo ter dado CERTO.
Me sentia muito babaca por ter acreditado em tudo o que ele disse sobre o quanto ele gostava de mim e do quanto eu era maravilhosa. Remoí inúmeras vezes, tentando entender onde foi que eu errei. Questionei ao infinito do tempo se não teria funcionado, caso eu não tivesse deixado tudo acontecer tão rápido.
O meu melhor momento, virou um dos piores da minha vida e se expandiria para o resto do ano em que tudo deu errado pra mim.
Ainda hoje não consigo pensar nesse episódio sem me entristecer. Foi extremamente frustrante e abala profundamente a auto-estima de qualquer pessoa, quando se leva um toco sem explicação.
Por favor, leitores: sempre tenham um motivo plausível pra dispensar seus parceiros. Nem que precisem inventar.
Deka