Eu e Ricardo* nos conhecemos pela internet e tínhamos um grupo de amigos em comum. Várias vezes fomos ao shopping juntos e, rapidamente, nos tornamos grandes amigos, afinal, era impossível não querer ser amiga de uma pessoa tão doce quanto ele.
Ficávamos horas na internet jogando conversa fora. Lembro-me de muitas vezes olhar no relógio e já estar na hora de ir trabalhar sem nem, ao menos, ter dormido um segundo. No telefone também não era muito diferente. Uma vez ele me ligou no celular e ficou mais de duas horas!
Quando meu aniversário chegou, fiz uma festa em meu sítio e ele, obviamente, compareceu. Mas naquele dia ele estava diferente, me abraçando com mais freqüência, dando beijos em meu rosto toda hora e dando indiretas em tom de brincadeira. Até que uma hora em que estávamos sozinhos, ele se aproximou de mim e disse:
– Você só me dá corda, mas ficar comigo que é bom, nada!
– Você que só fala, ao invés de FAZER -- respondi em um impulso que até hoje não sei de onde veio pois, até então, eu só o via como amigo.
Ele abriu um sorriso enorme, se aproximou de mim, colocou as mãos em meu rosto e me beijou como se eu fosse a pessoa mais preciosa da face da Terra. Foi um beijo suave, demorado e cheio de carinho. O beijo dele era perfeito, e seus lábios se moldavam com precisão aos meus. Ficamos o dia todo juntos mas, para mim, ainda era muito estranho beijar e receber carícias de uma pessoa pela qual eu sentia uma amizade tão pura. No final do dia, ele tirou a corrente com pingente de sol e lua que estava em seu pescoço (que ele usava desde que eu o conheci),e colocou-a no meu, dizendo que era meu presente de aniversário e que era para nunca me deixar esquecer daquele dia.
Depois disso, ficamos uma semana sem nos falar e, nesse meio tempo, o cara por quem eu era extremamente apaixonada me telefonou, me chamou para sair, ficamos, ele me pediu em namoro e, em menos de dois dias, colocou uma aliança prateada e reluzente no meu dedo. Sim, foi tudo muito rápido, surpreendente e intenso.
Esse meu namorado era psicótico ciumento e não me deixava falar com ninguém do sexo masculino que não fosse meu pai e meus irmãos — até do meu primo ele tinha ciúmes.
Fomos a um barzinho com os amigos dele e, no meio da noite, fui ao banheiro. No caminho encontrei o Ricardo, que me cumprimentou com um abraço (e eu, besta como era, morrendo de medo que meu namorado visse).
– Oi, como você está? Sumiu hein? – disse ele. (Fazia 15 dias que tínhamos ficado, e depois disso, realmente não nos falamos).
– Não sumi não, estou no mesmo lugar. Você não me ligou também – respondi.
Ele foi segurar minha mão como, às vezes, fazia e senti seu olhar paralisar. Ele tinha visto a aliança.
– Você está namorando?
– Eu ia te contar. Me desculpe. Foi tudo muito rápido e… – não consegui terminar de falar quando percebi que seus olhos estavam vermelhos e carregados de lágrimas.
– Eu queria ter sido especial para você.
– Mas você foi… Quer dizer, você é! Você é, sem dúvida, um dos meus melhores amigos.
– Eu não queria ser só seu amigo.
Enquanto procurava as palavras corretas a dizer, senti um puxão em meu braço. Era meu namorado que tinha ficado preocupado com minha demora e tinha ido atrás de mim. Com muita grosseria, ele me puxou, não me deixou me despedir do Ricardo e me levou de volta para a mesa. Naquela época, eu era muito boba e apaixonada pelo meu namorado que nem contestei. Mas fiquei muito chateada com a tristeza de meu amigo — eu realmente não havia percebido que ele era apaixonado por mim.
O namoro durou 7 meses e, em todo esse tempo, não conversei com o Ricardo. Eu pedi desculpas a ele e, como eu disse, ele era muito doce e me desculpou por todas as coisas erradas que tinha feito. Claro, nossa amizade não voltou a ser como era antes. Sempre falava comigo no MSN, me deixava um “bom dia” no Orkut, mas não me telefonava mais.
Meses depois, em uma quinta-feira, meu celular tocou e meu coração se encheu de alegria ao ver o nome dele no visor.
– Oi, tudo bom? Queria saber se eu poderia te ver na terça-feira que vem, na hora da saída da sua faculdade? — perguntou ele.
– Claro! Eu iria amar, estou morrendo de saudades de você.
– Que bom. Porque se demorarmos muito, a próxima vez que você me vir, eu estarei de terno e gravata.
– Por quê? -- perguntei confusa.
– Ué, na sua formatura. Não vai me dizer que você se esqueceu que prometeu que eu serei seu padrinho?
– Ah sim, não esqueci. É que falta tanto tempo para formatura, que nem imaginei que fosse isso. Deus me livre ficar todo esse tempo sem te ver.
– Terça-feira então, às 22h. Estarei lá.
– Ficarei esperando. O que vai fazer no final de semana?
– Vou à praia com uns amigos.
– Bom divertimento. Bom final de semana.
– Obrigado, para você também.
Desliguei o telefone, na esperança de que finalmente nossa amizade estava entrando nos eixos novamente. E que, talvez, ele tivesse se afastado porque precisava daquele tempo para superar, mas agora, tudo voltaria nos eixos.
O final de semana passou, e a segunda-feira chegou (ela sempre chega!). Eu estava no trabalho, em uma correria como sempre, quando meu celular tocou e era um número desconhecido.
– Oi, é a Letícia*, tudo bom? – Letícia era uma conhecida, muito amiga do Ricardo, mas que eu não tinha muito contato.
– Tudo bom sim, e com você? — respondi, confusa, afinal, ela nunca tinha me telefonado antes.
– Não, não estou bem. Olha, o que eu tenho para te dizer é péssimo. O Ricardo foi à praia com uns amigos no sábado, o mar estava muito forte, não sabemos direito o que aconteceu, se ele caiu em um buraco ou se teve uma câimbra…
– Ele está bem? Onde ele está? – perguntei quase gritando e em pânico.
– Ele faleceu — ela disse, começando a chorar.
– Não pode ser…
Meu coração parecia que tinha sido dilacerado. As lágrimas escorriam aos montes e meu choro era muito alto. A Letícia prometeu que me ligaria novamente com as informações do velório e desligou. Minhas colegas de trabalho entraram em minha sala, assustadas com meu choro, mas eu não conseguia explicar o que estava acontecendo.
Não tive coragem de ir ao velório. Não queria vê-lo de terno e gravata, mas em um caixão ao invés da minha formatura. Não suportaria vê-lo ali.
No dia seguinte, a terça-feira, quando deu as 22h, eu sai da faculdade, com uma esperança boba de que tudo tinha sido um engano e que ele estaria ali, me esperando. Obviamente, ele não estava.
Foi o maior #prontocaguei da minha história. Não só por ter machucado o coração dele. Mas também por ter perdido tanto tempo, ficando longe dele, por causa de um namorado besta. Por não ter procurado por ele pessoalmente depois. Eu sei que não o procurei porque quis dar a ele o espaço que achei que ele precisava, mas ainda assim. Se eu soubesse que teria tão pouco tempo com ele…
A ultima vez que o vi, ele estava com os olhos cheios de lágrima, dizendo que queria ter sido especial para mim. Ele foi e é muito especial para mim. Espero que, onde quer que ele esteja, saiba disso. Já tem dois anos que ele se foi e não tem um dia que eu não me lembre dele…
#prontocaguei³³³³
P.S. Na minha formatura, chorei horrores e rezei para que sua alma, de alguma forma, estivesse ali comigo. Meu padrinho foi o meu irmão, mas no coração, foi o Ricardo.
Palavra da Leitora
(Juliana Marotti – http://twitter.com/jumarotti)